sexta-feira, 10 de julho de 2020

1979



Ei!
Olha lá.
Os girassóis rodopiam.
Senta.
Vamos sonhar.

Calma quando voar
Os girassóis nos vigiam.
Senta
Eles querem te roubar

Corre
pelo caminho da felicidade.
Salta. Sem arrependimento
Destruirão a cidade
Neste exato momento

Sussurra.
Inflama.
Fremula.
Sem açodamento

Os deuses podem despertar
com seu
ressentimento

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Para quê mais um dia no mês de fevereiro

Tanta chuva desperdiçada
Tanta tarde de abril para nada
Tanta água escorre pela calçada
Tanto querer

Tanta janela até tarde iluminada
Tanta solidão nas paredes infiltrada
Tanta emoção tolhida, encapsulada
Tanto correr

Tudo alagado no quintal
Tudo é levado pela cheia colossal
Para quê mais um dia no mês de fevereiro
Tanta tristeza inunda o carnaval
Tento entender

O Sol é Quase Eterno

Nosso amor é o pássaro
de alas abertas no céu
sustentado na amplidão
pelas térmicas e pelo véu
de sólidas nuvens de algodão

Ave linda e arredia
endêmica dessas matas
Nosso amor é a fera que rasga
com garras navalhais
tenras carnes cordiais

A proteção de lata
de armaduras medievais
nada pode contra a pata
do amor que rapina e mata
pequenos e frágeis animais

Eu fito o horizonte com medo
do ataque predador
de costas para o sol, o amor
mergulha em posição marcial

Arranca meus olhos e come
Te leva para longe, some
deixando escuridão e dor
e já não posso admirar o esplendor
das plumas do nosso amor

Ave arredia e rara
Que migrou para o tão distante
escuro e causticante
mundo do acabou

Mas o sol é quase eterno
e depois de todo inverno
ressurge pelas planícies
campos, jardins e pântanos

Do mundo que inventamos
Voando leve, faceiro, o amor
lembrando ao coração
Não! nunca passou.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Quase um Soneto

Arrasto minha carcaça
nesse pântano lodoso
Montado no destino
rocinante

Deliro na carapaça
de monstro escabroso
Talvez a maldição de algum
necromante

Tu vens, brilhante, estrela encarnada
No caminho alvo, tingido de doirado
Pelo sol da tarde, calma
alucinante

Ou sou eu que sonho
pelo pântano, enfeitiçado

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Intimidade no sofá da sala dos morcegos

A água cai do céu
parece a tela da tv fora do ar.
A chuva é o mundo fora do ar.
Passa o teu sorriso na boca de outra mulher.
Mas não era o original.
A chuva sou eu fora do ar.
Sabe a nossa intimidade?
Aquelas conversas. As história das vida dos parentes?
A chuva me levou para a sala dos morcegos
E me veio a memória aquilo tudo.
Memória!
Que desgraça é a memória.
Vamos levando para todos os lados caixas e caixas e caixas e momentos bons.
Enquanto chovem dos céus facas, adagas, cimitarras, catanas de péssimas recordações.
Foda-se tudo!
Nenhum bisturi pode remover o teu sorriso das minhas pálpebras.
E toda vez que eu fecho os olhos
eu sou feliz.
E rio sozinho.  

Sementes de Mundos.

Eu escrevo para desaguar esses sentimentos.
Escrevo para dar vazão.
Não é tanto a qualidade literária dos escritos
porque resistem pouco a qualquer análise.
Mas pelos sentimentos impregnados nas letras virtuais.
Escrevo porque ninguém se interessa em entrar nesse ambiente.
E os que entrarem nessa piramide nunca decifrarão os hieroglifos dessas paredes.
Dessa ilha. Dessa terra particular
construída por nós.

Eu penso as vezes que tudo é insignificante.
Que tudo pode ruir pois se sustenta em colunas
que a isostática não pode explicar.
Nessas colunas abaladas por forças descomunais
a saturação, o cisalhamento, o estress das peças parece inevitável.
Mas de repente eu me vejo chorando em uma ruazinha deserta.
E vejo que a elasticidade do material utilizado na fabricação desse mundo
e maior do que cabe na compreensão.

Porque é um mar que não seca.
É uma nascente de sentimentos.
Vai passar, vai passar, vai passar.
E não passa.
É como a constante sensação de cair.
Mas o fundo não chega e a aflição da queda não passa.

Escrevo para complicar, para demolir, para bagunçar.
Já desisti de tentar entender e os livros que venho lendo não trazem
uma unica formula que me dê solução.

Para quem lê de fora dessa terra
esses escritos são o tempo perdido de algum desocupado.

Mas para os dois únicos habitantes desse cometa furioso
as palavra ganham contornos dramáticos.
E na construção do texto não cabe rima, nem métrica, nem coesão
nem lógica, nem hora certa.
Porque a própria desordem das palavras espelha a falta de sentido.

E para que me serve a vida lá de fora.
Se eu so consigo ser feliz sendo completamente triste.
E que me importa se é uma contradição.
Contradições so existem no mundo palpável.
Esse aqui é o inventado.
É o mundo construído sobre bases irreais

Eu escrevo.
Eu desenho e vou colorindo os momentos
com palavras.
Com palavras.
Com as palavras:
Sementes de mundos.